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Aprendizagem de uma expedição científica

 

A agroecologia no Semiárido brasileiro se funda às sombras do Latifúndio, no seu interior ou nos espaços abandonados por eles. Onde Vaqueiros, ex-escravos, índios, foram ocupando pouco a pouco as terras em condições de posseiros, arrendatários, moradores ou até mesmo apropriando-se das terras, devido  a falta de ação dos fazendeiros e latifundiários.  Assim a agroecologia começou a se desenvolver na região caracterizada pela associação de vários subsistemas de manejo agroecológico.

 

Estes protagonistas de ocupação do espaço Semiárido, desde então transformam e ajudam a proteger a paisagem do Semiárido, assegurando a sustentabilidade mútua. Eles protegem as plantas, animais e fontes de água, que são uteis, ajudando a manter a biodiversidade.

 

Neste artigo, exploramos a experiência de vida, da inter-relação cultural com a manutenção da biodiversidade ou “Diversidade Biocultural”, de um ex-Vaqueiro o Sr. Manuel Almeida Lopes, popularmente conhecido por Sr. Tiné, que hoje faz agroecologia acontecer, do dizer ao fazer, do fazer ao saber, da reflexão à ação, da ação à reflexão.  

 

O Ex-Vaqueiro e sua relação com a planta Erva-de-Leite

 

A comunidade de Cacimba Salgada, Irauçuba, Ceará, está localizada numa área considerada um Núcleo de Desertificação – Núcleo de Irauçuba -. Chegar à comunidade de Cacimba Salgada, e deparar com uma realidade diferente é surpreendente, como o nascimento da vida com sinais de esperança numa terra degradada (ou num mundo complexo e complicado).

 

No caminho, uma planta e um homem do Sertão se destacam na paisagem: a Erva-de-Ovelha ou Erva-de-Leite e o Senhor Tiné. Ambos formando uma simbiose de amor, para a vida florescer e a convivência do Ser, acontecer, harmoniosamente no equilíbrio do bem viver. O Padre Antônio Viera já dizia: “os antigos cultuavam as plantas, acreditando que elas tinham almas”.

 

Espécie Erva-de-ovelha (Stilozante humilis)Espécie Erva-de-ovelha (Stilozante humilis)

 

Esta ideia continua viva no espírito do Sertão Nordestino, oferecendo-nos boas lições de experiência de vida, no processo desafiador de adaptação e resiliência as mudanças climáticas. É uma dessas experiências de vida, que resgatamos neste artigo, fruto de uma Expedição Científica realizada pelo grupo de Desertificação e Agroecologia do Instituto Nacional do Semiárido (Insa/MCTIC), na qual relatamos as estratégias de Manejo Agroecológico para criar “Vaca de Leite” com a Erva-de-Leite, uma planta que faz produzir rios de leite de vacas e cabras numa terra em teses “degradada”.

 

Estratégia agroecológica número um ou Passo ZERO: A formação dos Bancos de Sementes no Solo.

 

O Sr. Tiné conta que nas áreas com fartos bancos de sementes, esbeltas e exuberantes plantas tenras de Ervas-de-Ovelha ou Erva-de-Leite brotam do chão.  Com o passar do tempo, quando vai ficando mais seco as plantas de Erva-de-Ovelha, espalham uma chuva de sementes, que logo ficam escondidas embaixo do chão, formando uma poupança para novos tempos de chuva, de esperança e de vida. Deixar a Erva-de-Ovelha completar este ciclo, é essencial, destaca o agricultor, para sempre ter alimento e a vaca produzir leite na dança da variação climática, disse ele.

 

Sementes de Erva-de-Ovelhas, escondidas no ChãoSementes de Erva-de-Ovelhas, escondidas no Chão

 

 

Estratégia agroecológica número dois: As Vacas pastejam somente após a Erva-de-Leite ou Erva-de-Ovelha espalhar a chuva de Semente no Solo

 

O Sr. Tiné, destaca que após as plantas de Erva-de-Ovelha, irrigar o Solo com suas sementes, os animais se banqueteiam fartamente da biomassa produzida na invernada.  Após isso, a terra fica desnuda, até parecendo que tudo morreu. Mas, quando chega novamente às chuvas, explode um tapete verde das sementes, que estavam adormecidas embaixo do chão, cobrindo toda terra desnuda. 

 

Choveu, imediatamente, as sementes de Erva-de-Leite ou de Ovelha, colocam o sonho coletivo em funcionamento, latentes de germinação e de floração. Nascem em abundância, onde quer que exista um punhado de terra. Onde o banco de semente está bem formado, ela passa a ser predominante, sendo a planta de maior preferência pelas vacas e cabras. Ele recomenda nunca colocar os animais antes dela soltarem a sementes no chão e sempre uma carga animal adequada. Com isso o banco de semente não sofre redução.

 

Estratégia agroecológica número três: Monitorar ou examinar sempre a fartura, a fecundidade dos bancos de Sementes no Solo

 

Por último, o Sr. Tiné, recomenda sempre estar alerta, verificando, examinando se o banco de Semente continua lá, nas áreas de pastejo, fecundo e forte, para a vida e para a concepção do bem viver prosseguir nesse processo admirável, de dança de adaptação climática. Nesse sentido, para verificar a saúde dos bancos de Semente na sua propriedade, ele usa dois indicadores agroecológicos, a saber:

 

O primeiro é a Galinha Guiné: Ele destaca que é um excelente indicador para verificar a robustez do Banco de Semente. Ele explica que coloca as galinhas Guiné para pastorear em toda a área, acompanhando a sua movimentação de uma área para outra. Quando as mesmas são abatidas, ele verifica a moela. Se esta estiver cheia de Semente de Erva-de-Ovelha, indica que a área possui um robusto banco de sementes. Assim, é uma garantia de continuar produzindo Leite.

 

Galinhas Guiné indicadora de bancos de sementes de Erva-de-OvelhaGalinhas Guiné indicadora de bancos de sementes de Erva-de-Ovelha

 

O segundo indicador é o próprio Solo: Ele explica que colhe uma mão ou um punhado de solo dos primeiros centímetros. Em seguida quantifica o número de Sementes presentes. Se ele encontra acima de 100 Sementes, indica que nessa área a presença de Erva-de-Ovelha, está em equilíbrio harmonioso. Finalmente, ele destaca a última dica: A Erva-de-Ovelha, da preferencia a Solos “Ariusos ou Ariscos” ou Solos conhecidos tecnicamente, como Solos de Textura Arenosa.

 

Fechar-Abrindo: umas dicas de pesquisa contextualizada

 

Que processos microbiológicos e bioquímicos tem permitido a adaptação da Erva-de-Leite nestas áreas consideradas desertificadas?

 

 Que processo de Pesquisa Popular Participativa podemos desenvolver para compreender melhor as razões e sentimentos do, por que e para que, algumas famílias fazem as coisas                de uma forma e outras de outra maneira?

 

Como podemos Co-construir conhecimento útil, transformador, onde o saber acadêmico e popular formem simbioses de amor, como a simbiose do Sr. Tiné com a Erva-de-Leite?

 

Sobre a Erva-de-Ovelha

 

É uma planta herbácea que na matriz acadêmica é conhecida como Stilozante humilis. Outros nomes populares que se dão esta planta herbácea no Semiárido brasileiro são: Coentro-de-Boi, Erva-de-Leite e Alecrim.  

 

Texto e Foto: Aldrin M. Perez-Marin, João Macedo Moreira (Pesquisadores do Grupo de Desertificação

e Agroecologia em Terras Secas do Insa)

Simone Benevides (Núcleo de Popularizando Ciência, Tecnologia e Inovação do Insa)


 



 



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