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Celso Monteiro Furtado nasceu dia 26 de julho de 1920 no sertão do estado da Paraíba na cidade de Pombal. A cidade está localizada a 250 quilômetros do Instituto Nacional do Semiárido (INSA-MCTIC), sede da VI Semana de Popularização da Ciência no Semiárido que fez uma homenagem ao centenário de seu nascimento e foi adiada para 2021. Entretanto, vale notar que a importância de Celso Furtado para o INSA e para o Nordeste também está marcada pela presença do busto desde a inauguração do complexo administrativo do Instituto em 2011.

 

Essas homenagens são apenas pequenos gestos de retribuição ao intelectual paraibano que dedicou sua vida à ciência e ao desenvolvimento da região, da qual saiu em 1939 para graduar-se em direito na Universidade do Brasil no Rio de Janeiro. Depois, doutorou-se em economia na Universidade de Paris no ano de 1948 e fez pós-graduação na Universidade de Cambridge em 1957 e 1958. Além disso, passou pelos principais centros na Europa, Estados Unidos e América Latina como convidado ou professor visitante. De 1949 até 1957, atuou na Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL), no Chile, como diretor da Divisão de Desenvolvimento Econômico. Em 1958, criou a Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene) e atuou como primeiro superintendente até 1964 e, paralelamente, em 1962 e 1963 foi o primeiro ministro do Planejamento do Brasil. Com o golpe militar em 1964, teve seus direitos políticos cassados por dez anos. Na volta ao Brasil, retornou a política e foi ministro da Cultura, de 1986 a 1988, do então presidente José Sarney. Continuou contribuindo para a vida política e econômica do país até seu falecimento no Rio de Janeiro, em novembro 2004. Durante sua trajetória, publicou cerca de trinta livros sobre teoria, história e política econômicas que foram traduzidos para diversos idiomas.

 

Através dos textos autobiográficos de Celso Furtado, podemos conhecer suas principais preocupações e linhas teóricas bem como a história da política econômica que relaciona o Brasil com a América Latina e os países desenvolvidos. Nessa história manifesta-se o desejo incansável desse intelectual que se propôs a desmontar os mecanismos que condenavam o Nordeste, em especial o Semiárido, a ser problema sem solução e a encontrar os caminhos de um desenvolvimento próprio para o Brasil. Para isso, Furtado reconhecia o processo histórico e as estruturas sociais e culturais como matrizes que deveriam ser articuladas ao projeto de desenvolvimento. Alertava que ao não diferenciar o desenvolvimento brasileiro dos países já desenvolvidos, correríamos o risco de acentuar as desigualdades econômicas e regionais e, por conseguinte, o subdesenvolvimento. 

 

Para ele, agir sobre a realidade era a razão de ser do homem da ciência como produtor de conhecimento. Em seu texto “Aventuras de um economista Brasileiro”, reconhece três correntes de influências intelectuais em sua trajetória. A primeira delas é a positivista. Nas palavras dele: “a primazia da razão, a ideia de que todo conhecimento em sua forma superior se apresenta como conhecimento científico, a ligação entre conhecimento e progresso, tudo isso se impregnou em mim como evidente.”

 

A segunda corrente vem de Marx, como subproduto do interesse pela história. “Na sociedade estratificada e parada do tempo em que eu vivia, a ideia de que as formas sociais são históricas — portanto, podem ser superadas — permitia ver o mundo com outros olhos. (...) Permitia superar o círculo fechado do fatalismo e do absurdo, e ao mesmo tempo desembocava numa responsabilidade moral.”

 

A terceira influência é a da sociologia norte-americana, em particular da teoria antropológica da cultura, em que o primeiro contato aos dezessete anos foi pelo livro Casa-grande e senzala, de Gilberto Freyre. Mas, retrospectivamente, Furtado percebe que a importância do livro foi por revelar todo um instrumental novo de trabalho para a intelectualidade brasileira. Contudo, é só partir dos anos 1970 que o tema da cultura ou a dimensão cultural do desenvolvimento tem um lugar destacado no pensamento de Celso Furtado. Para ele, a civilização industrial converge dois processos de criatividade cultural: “um no nível das estruturas sociais, que veio a ser conhecido como a revolução burguesa; o outro no nível da produção de conhecimentos, que chamamos de revolução científica”.

 

A ciência como foco da VI Semana de Popularização da Ciência no Semiárido, está presente em uma reflexão feita por Furtado, em agosto de 1979. Diz ele:

 

“Qual a responsabilidade dos que criam e divulgam conhecimentos no mundo atual, mais particularmente na periferia deste mundo que é onde nos encontramos?”

 

“A profissionalização dos cientistas, sua transformação em indivíduos que vendem serviços e procuram tirar partido da escassez do que vendem, conforme as leis do mercado, é o primeiro problema que se coloca. Isso porque uma sociedade em que a criatividade está subordinada às leis do mercado é uma sociedade em que os que controlam os meios — os beneficiários diretos da acumulação — ditam a lei da cidade. Os fins da vida social não serão mais do que um reflexo da lógica desses meios. Portanto, é indispensável que os cientistas vejam naquilo que eles produzem valores, algo que tem um sentido em si mesmo, que está relacionado com os fins da vida humana. Produzir valores implica ter consciência do contexto social em que vivemos, assumir na plenitude a cidadania. E também significa organizar-se como cientistas para contribuir decisivamente no processo de reconstrução social.”

 

“Na periferia são os cientistas os que mais facilmente adquirem uma visão global do mundo, pois a ciência é hoje um sistema de criação de conhecimentos organizado em escala planetária. A percepção da dependência em que nos encontramos resulta naturalmente dessa visão global. Isso aumenta a responsabilidade que cabe naturalmente aos cientistas como agentes da transformação social. Se os cientistas tomarem plena consciência da significação última do que produzem, como valores sociais e humanos, do contexto social em que estão inseridos e da situação de dependência a que tem sido relegado o nosso país, terão necessariamente — como cidadãos ou como força social organizada — que contribuir de forma decisiva para colocar a ciência e a tecnologia a serviço da solução dos imensos problemas que enfrenta nossa sociedade.”

 

“Se é verdade que a tecnologia tem sido correntemente instrumento da preservação de privilégios, como ignorar que mesmo nos regimes mais autoritários e nas sociedades mais fechadas o poder, para preservar-se, necessita da cooperação dos que produzem conhecimentos? Portanto, a responsabilidade dos homens e mulheres de ciência é evidente e indeclinável nesta civilização da tecnologia. Faço esta afirmação com a certeza de ser compreendido, pois a razão de ser desta Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência tem sido a consciência da responsabilidade cívica que cabe aos que se dedicam à ciência no Brasil.”

 

Essas palavras proferidas na sessão inaugural da 31ª. Reunião Anual da Sociedade Brasileira de Progresso da Ciência, em Fortaleza, ainda devem orientar a profissionalização da ciência mais de quatro décadas depois.

 

Referências Bibliográficas:

 

D’AGUIAR, Rosa Freire. Essencial Celso Furtado. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2013.

 

FURTADO, Celso. Obra autobiográfica. São Paulo: Companhia das Letras, 2014.

 

Sites:

 

http://www.centrocelsofurtado.org.br/

 

http://www.sudene.gov.br/

Texto: Aline Gama de Almeida

Ilutração: Insa


[1] Agradeço as sugestões e a indicação de leituras da viúva de Celso Furtado, Rosa Freire d’Aguiar, e indicações de Glauber Carvalho do Centro Celso Furtado.


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