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O projeto Saberes no Semiárido: Transforma, coordenado pelo Núcleo de Desertificação e Agroecologia do Instituto Nacional do Semiárido (INSA), promoveu no início de fevereiro a primeira assembleia comunitária no município de Ponto Novo, no Centro-Norte baiano. A ação, que teve como sede o assentamento agrário Terra Nossa, faz parte do processo de identificação e apresentação do projeto aos territórios e comunidades participantes, que envolve visitas a agroecossistemas, palestras, oficinas, debates e reuniões com parceiros institucionais da região.

 

Segundo a historiadora e educadora popular Eulália Oliveira, responsável pelo projeto na região, a assembleia teve o formato de oficina-debate e contou com a presença da jornalista basca Esti Redondo, mestranda pela Escola Nacional Florestan Fernandes e integrante do movimento internacional Via Campesina. Esti Redondo tem contribuído com o Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA) através de palestras pelo Brasil, e chegou ao assentamento Terra Nossa para compartilhar suas experiências nas áreas de bioconstrução e infraestruturas produtivas camponesas autônomas, além de refletir sobre os processos de luta histórico-geográficos do assentamento e suas condições sócioeconômicas. 

 

Com estes temas em pauta, a oficina-debate coordenada por Eulália Oliveira e Esti Redondo dividiu-se metodologicamente em quatro momentos-chave. O primeiro foi naturalmente dedicado às boas-vindas aos participantes (famílias e lideranças locais) e à apresentação do projeto Saberes no Semiárido: Transforma, que através de questões semiestruturadas tomou conhecimento do perfil dos assentados, suas origens, histórias de vida e as condições que as levaram à luta pela terra. Em seu relato, a pesquisadora Eulália Oliveira reproduz a fala de uma das assentadas cujo nome optamos por preservar: “Primeiro eu não tinha terra, e depois que surgiu a terra fui trabalhando e botando a cabeça no lugar. Veio a casa, é uma mudança grande pra mim, foi porque não tinha nada disso e não tinha esperança de ter o dinheiro para comprar, posso dizer que me sinto no céu, agradeço a Deus e os companheiros que lutou junto com nós”. Ainda segundo Eulália, mesmo possuindo origens diferentes, é possível delimitar um perfil geral da população do assentamento Terra Nossa, isto é, de camponeses do semiárido desprovidos de terra e na luta por uma, sendo estas características uma razão orgânica para o sentimento comunitário que evidenciam.

 

De fato, isto ficou ainda mais claro no segundo momento da oficina-debate, quando as ministrantes apresentaram um mapa da região para que os participantes compartilhassem suas trajetórias geográficas, avanços, recuos, perdas e conquistas que tiveram no processo. Ao final, a opinião geral pôde ser sintetizada na fala otimista de outro assentado: “podemos dizer que agora somos gente. Quem não tem sua terra, sua casa, seu lugar não é visto e nem considerado gente, agora somos gente”.

 

A seguir, no terceiro momento, o mapa foi utilizado para localizar e discutir a importância das bioconstruções para o assentamento Terra Nossa, desde suas primeiras casas de palha e adobe ao centro de formação do Movimento dos Pequenos Agricultores, que está sendo erguido com o trabalho coletivo da comunidade e a colaboração voluntária de pesquisadores-ativistas, como é o caso de Esti Redondo. Segundo Esti, “o processo de territorialização-desterritorialização-reterritorialização (TDR) dos movimentos sociais no perímetro de irrigação de Ponto Novo começou em um espaço pequeno, que após o despejo tornou-se menor ainda, mas que através da luta voltou numa reterritorialização imensa com o assentamento Terra Nossa e os lotes irrigados, expandindo-se em as lutas posteriores, como é o caso do assentamento Mandela e do acampamento União”. Em todos estes processos, ainda segundo a pesquisadora, “as bioconstruções estiveram sempre presentes”.

 

Chegando enfim ao seu último momento, a oficina-debate realizou um balanço dos temas centrais ao desenvolvimento da comunidade, discutindo estratégias de fortalecimento dos Sistemas Camponeses de Produção (SCP) e das relações comunitárias como um todo. Somando-se a outros momentos da pesquisa, este primeiro encontro resultou em uma compreensão mais abrangente da questão agrária e hídrica do Semiárido e da importância contra-hegemônica dos arranjos produtivos agroecológicos, como as bioconstruções. Neste sentido, alguns exemplos emblemáticos foram citados, como o caso da empresa Sitio Barreiras, que abandonou a região durante uma estiagem devido à incapacidade de atender o abastecimento humano e animal com seu sistema extensivo de irrigação. Em contrapartida, os pequenos irrigantes que se utilizavam das técnicas de convivência com o semiárido lograram permanecer naquela terra, produzindo na lógica de sequeiro até que as chuvas devolvessem à barragem local sua capacidade irrigatória.

 

Diante destas experiências, o projeto Saberes do Semiárido: Transforma contribui para aprofundar a reflexão sobre as potencialidades dos Sistemas Camponeses de Produção dentro de cada comunidade e família atendida, e ainda mais quando consideramos as parcerias com instituições como MPA e Via Campesina, que aos seus modos unem-se ao INSA no objetivo comum de transformar o Semiárido produtivo em uma região plenamente sustentável e ambientalmente consciente. Ponto Novo é o primeiro de três municípios do centro-norte baiano a receber a visita do projeto. A seguir, ouviremos boas notícias de Jacobina e Caem. Até lá

 
Texto e edição:

Aldrin M. Perez-Marin

Daniel Magalhães

Eulália Oliveira

Esti Redondo

 


 

 



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